Errar é humano, perdoar também!

"Quem diz que não se arrepende de nada é parvo, ou santo."
Miguel Portas, 23.07.2011

Haverá alguém que em toda a sua vida nunca tenha visto um filme, lido um livro, ouvido o testemunho sobre alguém, etc etc, que sofreu um desgosto, foi traído, abandonado, enganado? Certamente que todos nós já assistimos a episódios destes. Mas quantos filmes, livros, testemunhos é que já assistimos onde o relato não é oriundo da vítima (ou melhor, do individuo cuja sociedade está automaticamente preparada para encarar como sendo “a vítima”)? Pois… Será que nunca ninguém pensou que a pessoa que comete o desgosto, a traição, o abandono, o engano, também pode ser, de certa forma, outra vítima? Quanto mais não seja, vítima de si própria!

Uns mais orgulhosos que outros, uns mais frontais que outros. Todos, independentemente do nosso carácter fundamental, já cometemos erros! Umas falhas simples, outras lacunas mais graves. Todos sabemos que não somos perfeitos, nem que o próximo o é! Então, porque é que numa situação de erro, de falha, apenas se aponta o dedo ao transgressor? Será que esse infrator não é tão humano como o que sofreu a lacuna?

Para alguns poderá parecer a defesa do Diabo, para mim é algo mais elementar: é um alerta, um memorando de que, com ou sem erros, com ou sem culpa, continuamos a ser todos humanos! Logo, porque se espera a perfeição em alguns, e se exalta a fraqueza noutros? Sim, porque é certo que todo o erro deve ser emendado e castigado se for caso para tanto, mas quando tal punição é levada ao extremo, é mais do que evidente a existência de um enviesamento no julgamento: pune-se o individuo porque falhou, ou seja, demonstrou em termos mais dramáticos a sua não-perfeição; e ao mesmo tempo nutre-se compaixão pelo outro individuo, aquele que tem o direito a chorar, lamentar, revoltar-se face à injustiça de que foi alvo, que merece um abraço de consolação. Será isto totalmente justo e equilibrado? Talvez não…

Todos já fomos magoados por terceiros, nalguma circunstância da nossa vida, com maior ou menor gravidade. São situações que, evidentemente, marcam a nossa personalidade, chegam até a ensinar-nos bastantes coisas, ajudam-nos muitas vezes a tornarmo-nos pessoas melhores. Não temos todos a mesma capacidade de reação, nem o mesmo timing quando chega a altura de nos levantarmos depois do empurrão que nos deram e que nos levou à queda. Mas, de grosso modo, todos encaramos com normalidade e respeitamos as alturas de nojo de cada um, quando este é assolado pelo desacerto alheio. Contudo, já não é tão fácil e automático ter o mesmo comportamento com o outro individuo, aquele que errou, mas que, não se esqueçam (!), também tem sentimentos!

A dor de saber que magoamos alguém que nos é querido não é menor e/ou menos importante que o sofrimento que provocamos no outro. Aliás, quem magoa sofre e bastante! Sofre por ter plena noção do seu fracasso. Sofre por saber que não merece contemplações aos olhos societários. Sofre por se sentir impotente e incapaz de aliviar a dor que provocou no outro. Sofre com o peso do remorso. Sofre porque o arrependimento que o assola não lhe concede quietude. Sofre por não ter oportunidade de pedir honestamente desculpa e mostrar como realmente lamenta ter sido capaz de tal atrocidade. Sofre por desejar clemência, apesar de sentir que não a merece.

Quantas vezes já parámos para pensar nisto? Quantas vezes nos pusemos no lugar do ser erróneo? Somos todos susceptíveis de cometer erros. Hoje somos magoados, mas amanhã também podemos vir a magoar, mesmo que não seja essa a nossa intenção (que é o que acontece na maioria das vezes!). Será que nesse dia vamos desejar que nos sentenciem da mesma forma que nós julgámos terceiros outrora? Talvez nesse dia entendamos melhor que errar é humano, mas perdoar também o é.

Cindy Sousa, 14.Junho.2012